Recortes Monográficos

Os escritos abaixos foram tirados da minha monografia Aborto em Caso de Estupro: Aspectos Morais.

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Resenha: O Papalágui

Feito como um trabalho para a matéria de antropologia.

O livro O Papalagui são uma série de depoimentos de um indígena chamado Tuiávii, chefe da tribo Tiavéia sobre os costumes europeus escritos pelo alemão Erich Scheurmann. Papalágui significa homem branco, ou literalmente aquele que furou o céu, quando os nativos viram as velas brancas dos navios colonizadores assim imaginaram.

O conflito de visões é aparente, o homem branco europeu, de cultura cristã, fora ensinado a subjugar a natureza, de que há pecado original, de que se deve cobrir a nudez e a trabalhar pelo progresso. A cultura indígena se adapta a natureza, é mais instintiva que racional, busca mais o prazer dos sentidos que a elevação espiritual, enquanto o homem branco despreza a humildade e a simplicidade de uma vida pacata e sadia sem ambições.

Tuávii não conheceu a civilização ocidental, seu background histórico não teve influência de Roma, da Grécia ou da Cristandade. Sua tribo não conheceu a física de Newton, a astronomia de Galileu Galilei, não fazia parte da Ágora de Aristóteles, Sócrates ou adentrou na caverna de Platão, não foi ao teatro assistir a uma tragédia grega, a escolástica de Tomás de Aquino e Santo Agostinho lhe era estranha, não conhecia a ética de Zenão ou Epícuro, tampouco ouviu falar das conquistas de Julio César, Alexandre ou da conversão de Constantino, não leu A riqueza das nações de Adam Smith, nunca ouviu falar dos direitos naturais de John Locke ou o poder tripartido de Montesquieu. Sua mitologia não tinha a revelação dos dez mandamentos do judaísmo e não possuia a idéia de um salvador pessoal, desconhecia As Institutas de Calvino ou O Cativeiro Babilônico do Papado de Lutero, jamais conheceu o humanismo de Petrarca ou O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdã. Contudo, a civilização européia aportava em suas praias com um plano de assimilação cultural. Tuávii deve ter temido as mudanças trazidas pelos de pele clara, e movido de um espírito conservador à lá Edmund Burke e feito uma apologia reacionária dos costumes indígenas.

O espírito colonizador vem da época moderna, um período de revolução cultural que visava ser superior à Idade Média, que Petrarca cunhou como Idade das Trevas, o período moderno se inicia na reforma protestante ao desafiar a infalibilidade papal, abarca o renascimento com o retorno nostálgico da cultura greco-romana (e consequentemente da escravidão, que havia terminado com o fim dos latifúndios romanos), abrange o iluminismo, filosofia que visava trazer as luzes universais da razão onde houvesse pessoas supersticiosas e termina na fase romântica industrial.

No contexto da época em que se escreve o livro o expansionismo marítimo explodiu em conjunto ao liberalismo fomentando a transição da economia feudal para o capitalismo, são essas viagens em buscas de novas rotas comerciais que acabaram permitindo aos philosophes levar suas luzes libertadoras à terras virgens assim como à religião trazer as boas novas de salvação em resposta à ordem do Cristo: “Ide e fazei discípulos de todas as nações”. Esse é o contexto do homem branco, que trouxe seus planos de mudança cultural ao povo indígena.

No princípio Tuiávii descreve que ensinaram que o corpo era pecado, e ridiculariza a forma como o homem branco trata de se cobrir, de forma desajeitada e anti-natural. E cita que se o corpo do sexo oposto fosse nu todo o tempo, o homem branco teria mais tempo para pensar em outras coisas do que a luxúria. Chama mamadeira de “rolo de vidro, fechado em baixo com uma maminha artificial em cima”. Também é nesse capítulo que ele faz fortes críticas estéticas ao modelo de corpo do papalágui, que admira seu nariz pontiagudo em vez do nariz achatado do índio.

Critica que o homem branco faça moradas de pedra, porque a casa do Índio é a natureza. Critica o amor ao dinheiro, à escravidão que a busca pela felicidade através de finanças traz e a falta de caridade dos ricos que promovem a desigualdade e se alegram enquanto outros passam fome, ao fato de possuir coisas e ter de guardá-las, e quanto mais possui mais se empobrece tornando-se dependentes delas.

No capítulo V fala da inconformidade do homem branco com o tempo, na busca para controlá-lo e possuí-lo. Tuiávii diz que de Deus são todas as coisas, e que esse Deus fica empobrecido pelo homem branco que toma tudo para si e lhe envia castigos por isso. Que o que o homem branco construiu jamais pode livrá-lo da morte, que é preferível o artista que é Deus do que o homem branco brincando de Deus.

Tuiávii não compreende porque devemos trabalhar mais do que o que Deus ordenou, e trabalhar com alegria e não com fadiga, para o homem branco, o castigo do pecado original para o homem era o trabalho, para o índio, trabalho é também lazer e desfruto.

Diz que a imprensa escraviza os pensamentos, desejando que todos pensem igual. E diz que o Papalágui se farta de pensamentos como uma arma de munição, prestes a disparar para todos os lados, e o pensar demais sobre tudo é uma insatisfação constante e terminam perdidos pois se estendem acima do que podem.

Também não poupa o cinema, ao qual chama de vida de mentira e de muitos papéis, uma sala escura onde um homem se senta e luta com um baú produzindo ruídos tão selvagens quanto um conflito na aldeia a fim de desviar a atenção de que as pessoas na tela não podem ser ouvidas.

Tuiávii faz pesadas críticas à religião colonizadora, dizendo ela ser tão ou mais idólatra do que a religião antiga dos indígenas, diz que o Evangelho foi trazido como mercadoria de troca e que o Papalágui não possui Deus em seu coração, que Deus ama mais sua tribo do que o Papalágui. Contudo, Tuávii não contraria o Cristo, dizendo ser seguidor de seus mandamentos e honra o Papalágui por ter trazido a luz divina do Grande Espírito.

O livro encerra com esse apelo de não se misturar com o homem branco, com duras críticas à então Europa moderna, progressista da época e à religião católica. Dizendo-se suficientemente contente com as alegrias nobres e belas que Deus os dá em grande quantidade.

O livro mostra como Tuávii enxergava com igual estranheza senão maior os costumes do homem branco do que o Papalágui com sua tribo. A visão dele consegue descrever detalhes que escapam aos que estão inseridos na cultura européia, disposta a aceitar de bom grado qualquer novidade tecnológica em nome do progressismo, quando não está desajeitadamente conservando costumes sem compreendê-los tal qual um bárbaro, rígida demais para mudar segundo os desafios de um novo habitat.

A ironia é que se há algo que Tuávii assimilou do homem branco com perturbadora perfeição foi seu desprezo pela cultura diferente, se os de pele alva despreza a cultura indígena, Tuávii da mesma forma ignora a história do homem branco e seus avanços científicos polarizando as duas culturas e criando um conflito de preconceitos de ambos lados. Ora, dois mais dois valem quatro tanto para o homem branco quanto para o indígena independente de cor da pele, Tuávii não deveria demonizar o homem branco com críticas que acabam por denunciar a superficialidade de seu conhecimento sobre a cultura ocidental, talvez por ser exposta de maneira também superficial pelo português.

O livro não pretende ser imparcial e mostrar a defesa do pele clara, o livro é uma tentativa de Tuávii formalizar uma resposta racional aos assédio cultural europeu, é um marco intelectual da cultura indígena, seja como discurso de apologia ao indigenismo, seja como testemunho de dois importantes povos cujo choque cultural resultou a cultura da Terra de Santa Cruz, a qual chamamos Brasil.