Sorvete

A diferença fundamental entre eu e Tolstoi é que sim, a violência é justificada, ou seja, que concordo com o comando de Paulo ao governo, mas o russo compreendeu com exatidão que a justificação da existência de um governo é e sempre será a justificação de alguma forma de violência.

Portanto, tributos são justos, e até contratos privados se utilizam da violência para serem melhor assegurados. Mas, a anuência que já não justifica todo contrato também não justifica a tributação mesmo quando essa é desejada, e esse é um fato que merece atenção pois a existência de uma moralidade não convencionada significa a necessidade de que, mesmo quem discorda dela pague tributo ou encontre punição.

A simples capacidade de um povo soberano causar sua própria destruição pela via tributária sem que uma força exterior o coloque de volta à ética, não significa que o objetivo contrário esteja desmoralizado. Se não se trata de convenção, então resta perceber que aquilo que era mal, em algum período da história até o dia de hoje, possuiu o nome de bem no Brasil para se propagar, pois nem as justificativas hitleristas eram sem alguma respeitabilidade. E o mal no Brasil usa a linguagem respeitável de direitos para acobertar a imoralidade.

Os direitos confundem a descoberta das maiores injustiças, os direitos naturais são gratuitos e asseguram a servidão do governo, mas sob o manto de direito gratuito à educação, saúde e sorvete, o governo assim, toma clientes do setor privado, e seus burocratas passam a ser os únicos com poder econômico para desfrutar de serviços de primeiro mundo, cuidando da estatização da economia, que cada vez mais, vendo sua vulnerabilidade busca seus captores por socorro, dividindo-se em classes e guildas protegidas. Enquanto direitos no Brasil forem serviçais de auto-estima, eles estarão criando um alto custo de vida inacessível aos que possuem menor artilharia monetária e cuidando que estes nunca atinjam um padrão de vida de primeiro mundo, e tudo isso sob a justificativa que os estão beneficiando.

Se os EUA estão bem, mesmo com um presidente ruim, e o Brasil estaria ainda mal, mesmo com um presidente bom, é por não perceberem que a dificuldade brasileira não é institucional, mas legal, que a Constituição de 88 é projeto de um grêmio esquerdista, uma tese baseada num fanatismo político de dominação, e portanto todas as leis brasileiras que nascem desse ramo estão viciadas, quanto mais cômica é acreditar em algum senso de neutralidade jurídica quando se descobre o feitio das salsichas. O brasileiro, que sai às ruas em busca de direitos e justiça, ainda anda perdido quanto à virtude da Constituição Americana, emendada mas jamais revogada, e a Declaração da Independência. Essa é uma declaração que fala sobre os direitos universais do homem e não de um povo específico, mesmo que não haja povo mais universal que o americano, um povo construído dos restos da europa e do mundo.

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